zews comemora vitória no round durante o Champions Stage da IEM Katowice (Foto: ESL)

Depois de voltar às raízes brasileiras, o MIBR terminou a IEM Katowice, seu primeiro torneio no ano, na 3-4ª colocação. De volta ao comando do quinteto após três anos, Wilton “zews” Prado se disse triste, mas esperançoso, com a derrota para a Astralis.

“Ficamos tristes, mas o trabalho foi bem feito e a derrota foi nos detalhes. Mas, a gente sabe que dá [para bater a Astralis]. Sabemos jogar contra esses caras aí, a pressão não nos abalou. Sabemos que, se continuarmos no caminho certo, há uma luz no fim do túnel”, contou zews em entrevista ao Mais Esports direto de Katowice, na Polônia.

“A gente sabia que a Astralis era uma equipe muito preparada. Por mais que todos falem, nós ainda somos uma equipe nova. O CS evoluiu muito, os caras do MIBR estavam jogando com os norte-americanos e era diferente”, completou o treinador.

A derrotapara os dinamarqueses aconteceu depois de um 2 a 0, com 16-14 na Overpass e 16-7 na Inferno. O primeiro mapa quase teve um final feliz, mas, como zews destacou, acabou escapando “no detalhe”.

“Ganhamos a grande maioria dos rounds armados e terminamos o half de TR na frente, mesmo com a gente perdendo o pistol e um forçado deles. Perder esses forçados doeu muito. No round da Scout [2 contra 1 vencido por device], estavam os dois ‘tageados’, aí ficaram ambos com medo de morrer e acabaram perdendo”, explicou.

“Perdemos os dois pistols, o que é sempre difícil jogando contra um time como a Astralis. Perdemos um round crucial no 14-14, um 5 contra 4 que a gente não jogou bem. Deveríamos ter um terceiro ali no A ‘baitando’ para o fer, ou, ele deveria estar num posicionamento melhor. Foi no detalhe”, completou.

O treinador também discorda que a Astralis tenha problemas em jogar na Overpass: “É um mapa confortável para eles, não acho que eles considerem Overpass um bicho de sete cabeças”.

Escolha do adversário, a Inferno já não inspirava muita confiança para os brasileiros. Na altura do confronto, os dinamarqueses estavam numa sequência de 13 vitórias seguidas em competições presenciais no mapa (após o título, o número subiu para 15).

“A Inferno a gente já imaginava [que seria difícil]. Estávamos confiantes em ganhar principalmente no terceiro, porque na Inferno contra eles sabemos que é complicado”, afirmou.

EXPERIÊNCIA NORTE-AMERICANA

Essa é a segunda passagem de zews pelo time número um do Brasil. O treinador foi o responsável por comandar a equipe nos dois títulos de major em 2016. Depois, teve uma curta passagem como jogador pela Immortals e se firmou como treinador na Team Liquid.

Após dois anos e meio na organização norte-americana, o treinador foi capaz de trazer muitas coisas para o quinteto brasileiro.

“Costumo dizer que o treinador tem que ser um camaleão, se adaptar às situações. O que a Liquid precisava não é a mesma coisa que o MIBR precisa agora ou a SK precisava antigamente”, contou.

“Trouxemos bastante coisa do estilo de jogo. Variações mais rápidas, pensamentos para os forçados, mapas, apostas inteligentes. Estamos tentando implementar tudo isso, mas demora um tempo”, explicou o treinador.

Não é só na hora do jogo que as coisas que zews aprendeu na Liquid tem ajudado os brasileiros: “Na parte psicológica falamos de métodos de treino, preparação e conversas quando as coisas estão complicadas. Não podemos deixar as coisas chegarem no limite. Nesse time é ainda mais fácil, pois a gente conversa ali na hora e se resolve”.

FELPS CABEÇA ABERTA

O trato com os jogadores também é diferente. Apesar deles já se conhecerem há muito tempo, o jogo evoluiu muito e zews também está colocando sua perspectiva sobre o individual dos jogadores.

“Tem uma coisa no jogo do FalleN. Ele estava tentando abraçar muitas coisas e estava perdendo um pouco do jogo dele. Não sei se foi por causa dos norte-americanos. Talvez ele não se sentia muito confortável em só focar no dele e tentava passar uma visão geral e agora, aos poucos, a gente vai trabalhar isso”, contou.

“Com cada jogador eu vou trabalhando alguma coisa. O felps, por exemplo, foi preciso atualizar algumas coisas. O Marcelinho [coldzera] é uma ideia ou outra. É difícil explicar o que estamos impondo, é um pouco de tudo. Graças a Deus, hoje, no MIBR, posso focar em inovação, que é o que eu sempre gostei”, completou.]

Confira a cobertura completa e in-loco do Mais Esports na IEM Katowice

A principal mudança individual, para zews, foi a de João “felps” Vasconcellos. E ela não se deu só dentro do jogo, mas também na vida pessoal do ex-INTZ.

“Acho que ele evoluiu muito como pessoa. Ele, diferente dos outros jogadores, acabou saindo do holofote internacional. O felps sempre teve uma personalidade forte e tinha muita convicção do que falava. Hoje em dia, ele viu que precisa fazer o que é necessário para a equipe. Viu que não precisa ser mais aquele jogador super agressivo sempre. Ele mudou muito, evoluiu em problemas que tinha antigamente. Quem conhece ele, sabe”, revelou.

“Com dead, Camila e eu aqui para conversarmos com ele, melhorou. Ele tem sido mais cabeça aberta e é uma pessoa melhor”, completou.

VEM MAPA NOVO POR AÍ?

Antes do major, o MIBR fez um período de treinos na sede do Movistar Riders, em Madri, Espanha. O período foi frutífero e muito elogiado por zews e os demais jogadores. De acordo com o treinador, foi possível preparar um estilo de jogo diferente – que foi pouco visto no major.

“Do nosso estilo de jogo vocês viram muito pouco, pois a gente foi evoluindo durante o campeonato. Por mais que tenhamos treinado os 20 dias em um estilo diferente, quando chega na hora do campeonato, você volta para seus instintos”, revelou.

“A gente tem misturado muito esses dois estilos e vem fazendo as apostas inteligentes, como, por exemplo, se aproveitar de uma economia meio zoada para fazer um forçado diferente, gastar os recursos de um lado do mapa para tentar capitalizar depois, confundir o adversário. Os jogadores são muito bons nisso e não adianta tentar trocar o estilo por inteiro”, completou zews.

Além do estilo de jogo, outra coisa pode mudar em breve: o map pool da equipe brasileira. De acordo com zews, não houve espaço para apresentar algumas das novidades preparadas para os mapas.

“Não podemos mostrar novidades do map pool nesse torneio, os matchups não foram favoráveis, mas, vocês vão ver em breve”, contou.

A grande expectativa do público é que essa novidade seja a Nuke – um veto histórico de Gabriel “FalleN” Toledo e companhia. A última vez que o mapa foi jogado pelos brasileiros foi na IEM Katowice, em janeiro de 2017.

“Vai aparecer mapa diferente aí, vamos colocar para jogar e vai ser muito legal. Vamos deixar uns mapas abertos que o povo não está acostumado e vamos escolher. Estamos confiantes em tudo”, completou o treinador, sem entrar em detalhes.

SOFRENDO COM O RELÓGIO

Que os jogos dos brasileiros no Counter-Strike: Global Offensive são um verdadeiro “teste para cardíaco” todos sabem, mas um velho costume de zews e seus comandados segue incomodando o público: a estratégia de entrar nos bombsites com poucos segundos no relógio.

O treinador disse que entende a revolta, mas destaca que esse tipo de execução, que consagrou a equipe na altura do bi mundial, é necessária.

“Eu sei que para o torcedor é difícil, ruim de assistir. Num CS de alto nível, tático, o jogo tem que ser assim. Tirando o jogo contra a Astralis, a gente não fez tanto disso. Tem mapas que você é obrigado a gastar recursos, às vezes uma molotov ou uma smoke te seguram e, se você não entrar no final, eles vão te destruir na utilidade”, explicou.

MIBR se reúne antes da semifinal diante da Astralis (Foto: Bart Oerbekke/IEM)

“Não é fácil pegar um time como a Astralis despreparado, eles são muito bons com as utilidades. Com essas entradas no final, você pode conseguir”, continuou.

Para facilitar, zews deu um exemplo prático na Inferno – um dos mapas mais jogados pelo MIIBR.

“Você está jogando no arco da Inferno, por exemplo. Se eu fingir a B1 [bombsite B] com 1 minuto no relógio, você não vai sair. Se eu fingir com 15 segundos, você já está correndo. Tem que jogar com o psicológico, emocional do jogador”, afirmou.

O treinador lembrou dos tempo áureos de FalleN e companhia para justificar as entradas tardias: “Para os torcedores, eu sei que é difícil, mas vamos ter que continuar um pouco com esse estilo porque é o único jeito de colocar pressão nesses caras e a gente é bom nesse momento de pressão, foi assim que fomos campeões”.

“Temos uma estatística que na LG, SK, nossos melhores rounds eram o 27, 28, 29 e 30, quando o negócio está pegando. São nesses rounds que temos uma cabeça melhor e temos de usar disso. Por mais que seja difícil para o torcedor, é uma vantagem para nós”, completou.

CALENDÁRIO CHEIO

Depois de terminar a campanha no major, o MIBR não tem descanso. A equipe agora embarca para disputar a WESG na China e depois irá ao Brasil para a Blast Pro Series São Paulo.

“Como somos um time novo, queremos jogar o máximo de campeonatos possíveis para pegar ritmo e continuar evoluindo. Vamos sair da Polônia e vamos para China, da China para o Brasil, de lá para China novamente, depois para os Estados Unidos e depois Austrália. São, sei lá, 170 horas de voos nos próximos seis torneios”, comentou zews.

De acordo com o treinador, vai ser necessário um certo esforço, mas será possível conciliar a evolução do time com a falta de treino prático.

“Vamos aproveitar para ter mais qualidade no treino do que quantidade. Se tivermos 3 ou 4 horas em um dia, vamos fazer análises em equipe, entender as coisas que precisamos corrigir. Estávamos estudando os mapas, agora é hora de mudar esses detalhes, entender e pensar. Por mais que o tempo de treino seja curto, vai ter espaço para evolução”, finalizou.