Quando se sagrou campeão da primeira temporada da Brasil College League, torneio universitário promovido pela BBL, alegria e alívio eram evidentes no rosto de Gustavo “phx” Merigo, jogador da UTFPR – Pato Branco.

O título, querendo ou não, era uma recompensa para o estudante de Engenharia da Computação depois do sacrifício feito nos estudos. A equipe do interior do Paraná precisou viajar 12 horas de ônibus até a cidade de São Paulo para a disputa da grande decisão da BCL no último sábado (1º). Diante da Unicamp Tritons, vitória por 2 a 0.

Torneio finalizado, agora phx pode se dedicar aos estudos – principalmente em Física. “Alô, professor, estou voltando. Pode deixar que a gente vai voltar bem pesado”, disse em tom de brincadeira e de alívio em entrevista exclusiva ao Mais Esports.

phx: o olhar de quem jogava a final enquanto pensava na matéria atrasada de Física (Foto: Saymon Sampaio)

O sorriso amarelo é prova dos dilemas vividos por um universitário que também respira o cenário competitivo de esportes eletrônicos no país. Por mais avanços que essa área demonstre ultimamente, ainda há aquele preconceito – não só da família, mas como das próprias faculdades.

João “Frodo” Faggion sabe muito bem disso. “Eu quis organizar um campeonato de CS 1.6 e a professora achou um absurdo, pois os computadores da UTFPR deveriam ser usados apenas para as disciplinas e tal.”

Depois que Frodo e seus amigos passaram a jogar torneios universitários e os troféus vieram, o preconceito foi sendo quebrado. “Essa professora depois me parabenizou quando ganhamos os primeiros títulos e agora liberou para realizarmos os campeonatos.”

Frodo já tentou promover um torneio de CS 1.6 na faculdade, mas foi barrado antes. Agora a história é diferente (Foto: Saymon Sampaio)

É preciso equilíbrio entre estudos e games. A estrutura apresentada pela BBL nessa BCL foi a certeza que phx precisava para fazer sacrifícios. “A gente tem que faltar na aula para se locomover até aqui. Eu acho que dá pra correr atrás depois da matéria.”

“Por ter sido algo bem exclusivo, com uma bela estrutura, então demos bastante moral para a BCL. Quis muito vir aqui. Então deixamos uma matéria de lado ali, mas para recuperar depois.”

Trata-se de uma brincadeira que virou de gente grande, como reforçou Osni “Marmota” Romero. “É interessante porque está tendo muito mais campeonatos universitários, o que abre muitas janelas para pessoas que jogam muito bem e que não têm como ganhar visibilidade porque tem compromissos fora do jogo.”

O tom na resposta evidencia bem o pensamento sobre a tomada de decisão que teve para conciliar os estudos com a vida de pro player: abrir mão vale a pena desde que você saiba onde está se metendo.

Marmota sabe que não é apenas deixar os estudos de lado e rezar para dar certo (Foto: Saymon Sampaio)

“Apesar de ser a primeira edição da BCL, a estrutura é incrível. Foi o campeonato mais bem estruturado que já jogamos no cenário universitário. Não tem do que reclamar”, disse.

Definitivamente: não é apenas deixar os estudos de lado e rezar para dar certo…

DAS CERVEJADAS PARA O CENÁRIO NACIONAL

O título da BCL garantiu a UTFPR – Pato Branco na nona temporada da Brasil Premier League, campeonato nacional realizado pela ESL Brasil. É o ponto de encontro de várias equipes emergentes e também de times já rodados do cenário.

Mesmo com o nível mais sério, Frodo está bastante confiante no desempenho da PATOS. “A gente está bem tranquilo. Individualmente temos jogadores muito bons.”

Ele sabe da importância que é para os times que estão no circuito universitário do país a performance da Pato Branco na BPL no quesito representatividade. “É uma oportunidade para o cenário universitário como um todo mostrar que é forte.”

Pato Branco é a primeira campeã universitária da BCL (Foto: Saymon Sampaio)

“Se a gente conseguir um bom resultado, vamos abrir mais portas para outros campeonatos darem vagas como o que aconteceu aqui da BCL para a BPL.”

Mesmo com o troféu da BCL em mãos, phx sabe que não é fácil dar o primeiro passo como pro player – ainda mais enquanto se está na faculdade. Mas ele exaltou o caráter de inclusão que os jogos apresentam.

“Gostaria de incentivar esse pessoal porque eles entram na faculdade, não conhecem ninguém e os jogos constroem amizades. O que é o nosso caso: alguns de nós não se conheciam, então viramos amigos, montamos o time e hoje estamos aqui ganhando tudo.”

Essa amizade que, inclusive, rendeu bons frutos para a Pato Branco. Como explicou Marmota, o nome da equipe foi muito divulgado pela Atlética da universidade. Dessa forma, até mesmo quem não gostava de esportes eletrônicos foi contagiado.

Os estudantes da Pato Branco vão encarar os times profissionais da BPL (Foto: Saymon_Sampaio)

“Graças a divulgação da Atlética nós ficamos bem conhecidos por gente que nunca jogou. Tem pessoas que não estão ligadas aos e-sports e nem sabem o que está acontecendo assistem pra dar força.”

Toda essa responsabilidade gera aquele frio na barriga como o próprio Marmota admitiu. “A gente está bem animado, mas ao mesmo tempo apreensivo para estar preparado e bater de frente com times bem mais fortes do que a gente.”

Mesmo assim, ele e o restante da equipe sabem o que está em jogo – e vão se dedicar ao máximo para fazer valer a pena todo esse sacrifício nos estudos. “Temos o intuito de mostrar para essas organizações que, apesar de estarmos no cenário universitário, a gente tem potencial de ir para um cenário maior como é o nacional.”