Dallas Fuel no primeiro jogo em casa na Overwatch League. no Allen Event Center (Foto: Blizzard)

“Amanhã o jogo é em São Paulo, e, na casa do adversário, a equipe favorita pode tremer!”, “conhecido pelo seu caldeirão, o estádio será um jogador a mais para o time com o mando de campo!”. Frases assim são extremamente comuns no esporte tradicional e tornam o espetáculo sempre mais bonito, tanto pela veracidades das mesmas quanto pelo inesperado e pela surpresa que vem junto com elas. A torcida pesa. O grito pesa. O barulho faz a diferença. E, agora, graças à Overwatch League, este aspecto tão comum na maioria das modalidades esportivas chegou aos esports também!

“Mas, espera aí, Tonello… Os esports já possuem campeonatos internacionais há muito tempo, inclusive Copas do Mundo!”

Com certeza! Porém, além de raras, tais ocasiões são pontuais. Não há uma história interligada a uma competição mais longa que pode ser mudada justamente por conta do jogo em casa. Não é algo do qual todos, ou, ao menos, a maioria dos times poderá desfrutar no futuro. E isso ocorre por dois motivos: Primeiramente, porque nunca se saberá quais times serão classificados para qual campeonato e em qual cidade os jogos acontecerão. E, mesmo que haja tal conhecimento ou previsão, nem sempre o local que recebe as partidas possui uma torcida concentrada e voltada, em grande parte, a um time só. Isso, claro, não tira a beleza do público presencial, mas é diferente de estar frente a frente com a torcida específica de uma equipe que representa a cidade ou o país.
Além disso, a maioria das modalidades de esports não possui suas equipes baseadas em cidades, assim como ocorre na Overwatch League, mesmo que a competição seja organizada com franquias envolvidas.

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Se você esteve presente enquanto a história estava sendo escrita, você é privilegiado, sim! (Foto: The Esports Observer)

Com isso em mente, muitas dúvidas são levantadas. A logística disso é possível? Não há perda na qualidade de produção ou de jogo com os eventos se movendo o tempo todo? Há público para esse tipo de iniciativa? Então, vamos dissecar cada uma delas!

A respeito da logística e qualidade de produção: Com certeza é um desafio de alta complexidade. O recurso humano deslocado – jogadores, produção, equipe de casters, equipe técnica dos times etc – é grande e não pode haver erro, incluindo a impossibilidade de substituição por se tratar de formações e necessidades únicas. Ou seja, é inviável não contar com algum jogador ou caster por atraso de voo ou qualquer outro problema que possa haver.

Porém, com um ano de produção estável e 2019 sendo o ano de testes dessa evolução para jogos sediados em diferentes cidades, a Blizzard demonstrou que está no caminho correto com a etapa de Dallas da Overwatch League, por exemplo. Não houve grandes problemas de logística, pelo menos pelo que pudemos acompanhar publicamente, e mesmo a ocorrência mais grave – o apagão repentino no estádio que paralisou a transmissão por pouco mais de trinta minutos – foi resolvida em tempo recorde, e a transmissão continuou consistentemente pelo restante dos confrontos disputados. E este foi o maior indício de sucesso logístico. Até porque, com a liga em crescimento, mais times estarão disputando a próxima temporada, e isso faz com que uma parte possa jogar a etapa da cidade X, outra parte, a etapa da cidade Y e assim por diante. É um desafio, porém alguém precisa dar o primeiro passo. E este está sendo dado agora pela OWL.

Agora… O nível de jogo e a capacidade de preparação de treinamento ideais dos times é um ponto que deverá constar no planejamento estratégico de uma temporada de viagens. É necessário que as equipes possuam centros de treinamento montados para a prática antes dos eventos – o que é mais fácil de se fazer e já foi demonstrado em Dallas – e que, principalmente, possuam tempo de descanso e treinamento entre etapas. É importante lembrar, porém, que a sede da Liga ainda deve permanecer em Burbank, onde é atualmente, na Blizzard Arena. E, claro, que as etapas em diferentes cidades têm toda a temporada para acontecer pelo menos uma vez, e que partidas em lugares mais distantes devem ser planejadas para que a próxima etapa seja em um país próximo, diminuindo o cansaço das viagens e aumentando o tempo de treinamento estável, considerando jet lag e todo o tempo necessário para viagem e preparação. Imagino que, inicialmente, será puxado, porém em grande parte dos esportes tradicionais é assim que funciona e, com certeza, haverá uma conversa sedenta por feedback e ideias para a melhor execução do planejamento em questão. Portanto, eu sinceramente não me preocupo com uma possível exaustão dos jogadores ou com falta de treinamento e a consequente diminuição do nível de jogo da Liga.

Finalmente, há gente para acompanhar? Compensa toda a loucura logística, a verba investida, a produção dificultada? Bom… se ainda tem dúvidas, dá uma olhada no vídeo a seguir. Uma imagem vale mais que mil palavras.

E o mais legal de tudo isso, que vale a pena ser repetido: O ambiente é completamente diferente e isso muda tudo. Muda para os jogadores, que podem tremer na base e ter um desempenho inferior – ou crescer por conta da torcida a seu favor e jogar o dobro do que jogariam em situações rotineiras. Muda para os casters, que, assim como eu, se empolgam muito mais em sentir a vibração da torcida, seu grito em uma jogada boa, em uma vitória da sua equipe. Aliás, a responsabilidade dos casters é maior, com certeza, pois seu termômetro está ali na sua frente e não no chat spammando algumas linhas de texto. Porém, compensa, e compensa muito. Dá, inclusive, sentido à profissão do narrador, comentarista, analista e apresentador, de certa maneira. E, claro, muda para o público. Quem já teve a oportunidade de ir em algum evento presencial, seja ele de esports ou esportes tradicionais, sabe do que eu estou falando. Você perde a timidez. Você instantaneamente passa a fazer parte de uma massa que quer uma única coisa: a vitória do seu time. Você grita. Você fica aflito, feliz, chora, pula, canta… até chegar à rouquidão. E depois continua mais um pouco. E isso não tem preço.

Por isso a etapa de Dallas da Overwatch League foi tão importante: É o primeiro capítulo de uma grande jornada que está por vir. Nós presenciamos história. A história dos esports, o próximo passo, o estabelecimento de um novo modelo que tem tudo para ser de sucesso. E tudo que discuti no texto foi provado na ocasião, tendo como exemplo a equipe da casa – a Dallas Fuel -, que mesmo após vir de duas derrotas consecutivas e estar jogando de maneira mediana, passou por cima veementemente de uma equipe em crescimento, a Los Angeles Valiant, e do seu arqui-rival, o Houston Outlaws. Inclusive, o próprio técnico da equipe comentou sobre o peso que a torcida e o fator casa tiveram nos jogadores para que tivessem uma performance muito além do esperado.

Tradução: Eu não sei como alguém pensou que seria uma luta justa – seis contra CINCO MIL e seis não são boas chances. A plateia aqui está insana e fez os garotos jogarem absurdamente bem! GGs Los Angeles Valiant!

Portanto, eu fico extremamente ansioso pra ver os próximos capítulos dessa saga! Lembrando que, ainda este ano, teremos jogos sediados em Atlanta durante a Fase 3 e em Los Angeles – ali pertinho de Burbank, mas tendo a Valiant como anfitriã da etapa – durante a Fase 4. E que alguns times, como a Philadelphia Fusion, já anunciaram a construção de estádios focados principalmente na Liga! Então partiu ficar de olho no grito da galera e, claro, nos jogos da OWL que estão pegando fogo! Para o calendário completo, dá uma chegada no site oficial da liga, que já tá em português com as datas no horário de Brasília! E segue o canal oficial da transmissão brasileira! Espero vocês por lá e semana que vem em mais uma coluna aqui no Mais! Abraço! :D