Ele chegou na sala de entrevista com um moletom esportivo cinza e de chinelos. Era um visual completamente diferente daquele uniforme alaranjado que trajava alguns segundos atrás em pleno palco da Overwatch League. Jay “sinatraa” Won se sentou e me cumprimentou com um sorriso no rosto; um sorriso controlado mas que se explodiu exatamente sete dias depois ao finalmente conseguir o que tanto queria: uma revanche vitoriosa contra a Vancouver Titans em plena final do segundo estágio da competição.

A San Francisco Shock queria — e muito — chegar novamente na final da Overwatch League depois da vitória praticamente escorrer pelos dedos na primeira fase de 2019. A Vancouver Titans, invicta desde a sua estreia na liga oficial da Blizzard, enfrentou com unhas e dentes o time de Sinatraa e fechou o placar por um apertado 4 a 3.

Durante a conversa de 15 minutos com o Mais Esports após a vitória por quatro mapas a zero contra a Shanghai Dragons no dia 5 de maio, o jogador foi bem receptivo e abriu o seu coração. Brincou sobre a possibilidade de ter a sua revanche  e bateu na mesa de madeira para espantar o azar.

“Queremos chegar na final de novo, enfrentar a Vancouver e vencer eles. Nós queremos muito a revanche. Vamos jogar treinos e scrims intensos nessa semana, intensidade de playoffs mesmo”, comentou ele com a cabeça baixa, já pensando no trabalho colossal que viria pela frente nos dias seguintes — e que no final valeria a pena.

“A primeira vez que perdemos contra a Vancouver foi doloroso. O mais triste que eu já estive em toda a minha vida. Para mim e para o Super também, especialmente ele”, completa.

E a pressão estava no topo por conta do recente desempenho da San Francisco Shock no Stage 2; afinal, eles ganharam literalmente todos os mapas que disputaram nessa etapa. Estavam invictos. “É insano. Digo, na primeira temporada nos jogamos muito mal, obviamente. Eu tinha muitas expectativas e não fui muito bem pessoalmente, mas estou muito feliz que nós temos um time muito bom agora desde que estávamos construindo isso para a segunda temporada e eu posso jogar muito bem com isso”, explicou o jogador.

A EVOLUÇÃO NO OVERWATCH ATÉ O TÍTULO

Sinatraa entrou na Overwatch League com uma pressão gigantesca sob os ombros: na primeira leva de contratos, o jogador norte-americano recebeu a proposta pela San Francisco de um salário anual de US$ 150 mil, cerca de US$ 100 mil a mais que o mínimo estabelecido pela liga aos contratos entre times e jogadores. Era a grande promessa da equipe.

2018-03-21 / Photo: Robert Paul for Blizzard Entertainment

“A primeira temporada eu era como um jogador ranqueado por aí. Pensava que podia matar sozinho os seis. Cheguei na Overwatch League achando que podia carregar, matar todo mundo e ir caçar eles no respawn. Parecia muito egoísta na primeira temporada”, lembra.

“Mas na segunda temporada, com Crusty chegando, eu acho que evolui muito. Ele ajudou muito a me desenvolver como um jogador e como usar meu time. Como ser um líder dentro do jogo, como usar meu time no geral e ser um jogador em equipe. Ponto. Agora eu sou um jogador melhor, um líder melhor e não mais um egoísta como um jogador ranqueado por aí”, reforçou.

Outro grande impacto veio com o encontro com o cenário asiático. “Começou na Copa do Mundo de 2017, foi a primeira vez que eu joguei contra coreanos. Foi contra o time da Coreia do Sul. E eu não achava de primeira que eles seria muito bons, porque achava que ‘ah, os coreanos são loucos mas eu sou bom’ e eu era realmente estúpido como um jogador ranqueado qualquer por aí”, brinca.

Foto: Robert Paul/Blizzard Entertainment

“Eu não parei de “feedar”, Saebyeolbe realmente me sufocou. E eu aprendi muito como isso, quanta coordenação os coreanos tem. Comparado com os ocidentais, os coreanos são muito mais coordenados no Overwatch. Com Crusty e com todos os coreanos chegando, eles ensinaram muito isso a nós. Rastrear o adversário, sempre ter um plano, sempre ter um plano durante a sua briga no geral”, lembra.

Nessas memórias de desafios, no entanto, tem espaço para um brasileiro. “Há um que eu percebi que era realmente muito bom”, começou Sinatra, puxando um pouco a sua memória e indo diretamente para a edição da Copa do Mundo em 2018. “Era o Liko. Ele era muito bom, o Genji dele era bem desagradável pra gente. Eu acho que todos eles são bons, mas Liko foi realmente o que me chamou a atenção”, reforçou. Na ocasião do confronto entre o Brasil e os Estados Unidos naquele ano, os brasileiros conseguiram tirar um mapa da seleção cheia de estrelas da Overwatch League.

Mas, entre toda essa caminhada, Sinatraa deixou muitos agradecimentos aos fãs e prometeu sempre melhorar. “Desde que a Overwatch League chegou e desde que ser um jogador profissional se tornou algo de destaque, eu tive que mudar e sair da escola. Eu não tinha que deixar a escola, na verdade foi minha decisão. Mas ela mudou muito a minha vida. É o meu sonho e estou realmente feliz com o que estou agora”, finalizou.