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“Durante a fase regular eles eram considerados o melhor time da Europa. Indo pro Rift Rivals, indo pros playoffs, tantas expectativas. E com duas semanas de preparação, todo mundo pensou que não era possível perderem pra Misfits, simplesmente não era. E aí, a zebra acontece.”

Esse comentário de Andrew “Vedius” Day, narrador da EULCS, ilustra bem o cenário em volta da Fnatic ao longo do segundo split de 2017. Paul “sOAZ” Boyer, Mads “Broxah” Brock-Pedersen, Rasmus “Caps” Winther, Martin “Rekkles” Larsson e Jesse “Jesiz” Le haviam adotado um estilo próprio, uma maneira agressiva de jogar que poucas line-ups conseguiram se adaptar ao longo da fase regular. Mas na partida que garantiria o ticket pra final — após dois anos desde a última aparição— , eles desmoronaram sob a pressão e se viram dominados por uma novata equipe na forma da Misfits.

Um mês, um 3 a 0 contra a H2k pelo Regional Gauntlet e um bootcamp mais tarde, a Fnatic se encontrou no primeiro Play-In da história, em um grupo com Kaos Latin Gamers e Young Generation. Contudo, o que era para ser uma fase de aquecimento, se mostrou na realidade um aborrecimento especialmente nos confrontos contra o seed 2 vietnamita.

Ao contrário de WE e Cloud9, que avançaram de maneira relativamente fácil pelos times emergentes, a Fnatic teve dificuldade em bater a YG e chegou ao ponto de perder um jogo. Đặng “BigKoro” Ngọc Tài e Nguyễn “Trung” Hải Trung se aproveitaram do match-up favorável no segundo confronto e esmagaram Rekkles e Jesiz. Isso, somado a escolhas ruins de lutas e a incapacidade de responder às ameaças de splitpush de Võ “Naul” Thành Luân fizeram com que os europeus fossem derrotados em apenas 32 minutos. Isso não impediu que o time comandado por Dylan “Dylan” Falco fizesse o esperado, vencendo a Hong Kong Attitude por 3 a 0 e se classificando pra fase de grupos do Mundial.

Fnatic durante partida contra Hong Kong Attitude (LoLesports)

O sorteio só aconteceu no dia seguinte, após a partida entre WE e YG. Como terceiro seed, a Fnatic poderia ser sorteada tanto no grupo A — com SKT, EDG e ahq — como no grupo B, no qual guerreariam contra Longzhu Gaming, Immortals e Gigabyte Marines. Acabaram caindo no segundo. Independente dos oponentes, o sentimento de desconfiança era enorme. Eles haviam falhado na busca pelo título europeu e ainda jogaram mal contra times teoricamente muito piores. Mas sem levar em conta o desempenho na fase de entrada, eles seriam perfeitamente capazes de bater de frente com os americanos e vietnamitas.

Aceleremos pro dia de abertura. A Fnatic foi o quinto competidor a subir ao palco do Wuhan Sports Center, talvez por ser o único veterano internacional do grupo. Jesiz liderou o caminho e atrás dele todos seguiram na formação certa, com cada jogador sorrindo e acenando para o público chinês. Rekkles, em especial, pareceu entusiasmado —  possivelmente porque perdera a chance de disputar o campeonato no ano anterior — e exibiu o icônico coração formado pela união dos dedos polegar e indicador.

Três horas e meia depois, esse entusiasmo foi destroçado pela Marines. Đỗ “Levi” Duy Khánh e companhia relançaram a antiga estratégia de lane swap, com o caçador de Nocturne sendo ajudado a limpar inteiramente a selva pelo Galio de Trần “Archie” Minh Nhựt. Nguyễn “Noway” Vũ Long e Phan “Nevan” Trung Toàn foram enviados para o top, enquanto Rekkles e Jesiz ficaram sozinhos na rota inferior. A Fnatic até tentou punir essa tática com um dive no bot, mas como saíram com apenas uma eliminação, a GAM teve total vantagem de tempo para levar o First Brick.

Levi, também, fez uso do hard leash para chegar rápido ao nível 6. De surpresa, ativou Paranoia e eliminou Jesiz, sOAZ e Rekkles, que estavam respectivamente 3, 4 e 2 níveis atrás. A partir daí, o embate se tornou uma bagunça com mais de uma kill por minuto e a Marines se aproveitando da constante pressão de minions pra adquirir visão. A Fnatic se perdeu nas rotações vietnamitas e, após ceder o Barão, viu Noway pegar um Quadra Kill para finalizar.

Os jogadores deviam estar confusos e enfurecidos. Haviam sido superados, novamente, por um time do Sudeste Asiático. Era perceptível na feição de Caps os efeitos daquela estréia. Mas a equipe européia não podia se deixar abater. Era só a primeira partida, eles haviam sido surpreendidos por métodos inconvencionais e ainda tinham mais pela frente.

Assim, foi encorajador quando, contra a Immortals, Rekkles estava 4/0 de Twitch —  discutivelmente o atirador mais disputado àquela altura — aos 20 minutos. Não só isso, mas eles tinham Dragão Infernal e vantagem de 2,5 mil de ouro. Tudo corria muito bem, exceto quando Broxah e Caps resolveram descer ao bot numa tentativa de eliminar Lee “Flame” Ho-jong. Naquele momento, era inaceitável que o jungler estivesse tão longe do Barão. E é claro que um grupo capaz como da IMT se aproveitou disso.

A partida se complicou, mas a Fnatic ainda estava dentro. Nem tudo estava perdido, até porque a Immortals não era uma equipe sem falhas. Tratava-se, então, de um jogo de centímetros: qualquer erro poderia custar o mapa. E, para tristeza do torcedor amarelo, esse erro aconteceu. Rekkles, que vinha tendo uma partida espetacular— e honestamente era quem mantinha o time na disputa — , se empolgou em um pickoff em Eugene “Pobelter” Park e utilizou o Flash ofensivamente. Ele ficou, dessa forma, em uma posição completamente isolada, fácil para os americanos o eliminarem. E simples assim, o jogo estava acabado.

Mais um golpe no moral da Fnatic. Depois do fair play, Rekkles voltou a sentar e logo depositou a cabeça nas mãos. Depois, a balançou e suspirou, ciente que sua jogada custara a vitória. Jesiz tentou animá-lo enquanto ele fitava o monitor, dando tapinhas nas costas e possivelmente falando que esse tipo de situação acontece. Mas para um jogador orgulhoso como o sueco, era difícil aceitar. “Eu honestamente senti como se o mundo estivesse acabando, pra mim”, disse ele em entrevista pós-jogo.

Rekkles decepcionado após partida contra Immortals (LoLesports)

Para piorar, eles enfrentariam a Longzhu — a favorita do torneio —  nas duas partidas seguintes, que ocorreriam dois e três dias depois. A chance de ficarem 0–4 era enorme e significaria quase que um adeus ao Mundial. Como esperado, os coreanos dizimaram os europeus no primeiro encontro, garantindo um Jogo Perfeito que terminou em tempo recorde: 20 minutos e 52 segundos.

Declarações dos próprios jogadores começaram a surgir nas redes sociais, como Jesiz falando que “haviam várias questões não resolvidas acontecendo nos bastidores, e esse jogo fora o resultado dessas questões” ou sOAZ desejando “poder jogar pra farmar por 20 minutos sem se preocupar com o time”. E embora a segunda derrota não tenha sido tão ruim, eles ainda assim perderam em 32 minutos, incapazes de parar Kim “PraY” Jong-in.

Era o fim. Estava tudo acabado. De maneira nenhuma a Fnatic conseguiria se recuperar de um início desastroso como 0–4. Certo?

O que aconteceu na segunda semana foi incrível. Para ser mais exato, inédito. Nunca antes na história dos Mundiais alguém conseguira escapar de tal déficit. Era preciso uma combinação improvável de resultados e depois ter energia suficiente para sobreviver ao tiebreaker. Se a Immortals ganhasse ao menos uma partida, eles estavam fora. Se a Marines vencesse dois combates, era eliminação. E é claro que se a Fnatic perdesse um joguinho sequer, acabava.

Então, como num passe de mágica, tudo começou a dar certo. A IMT perdeu pra GAM de forma embaraçosa, com Trần “Optimus” Văn Cường fazendo o que queria com Pobelter. Depois, mesmo perdendo pra Longzhu, a Fnatic se manteve confiante para vencer um jogo apertado contra Jake “Xmithie” Puchero e cia. Em uma série de pickoffs por volta dos 20 minutos, eles garantiram o Barão para assumir a liderança da partida. Os norte-americanos, no entanto, se mantiveram no duelo através de boa teamfight e controle da wave do mid.

Mas durante um cerco dos Imortais na torre interna do bot, Caps acertou o Olhar Petrificador da Cassiopeia em três oponentes, que bateram em retirada já muito fracos. A Fnatic tinha vantagem numérica de quatro contra dois e era questão de tempo até vir o Ace. De repente, Cody “Cody Sun” Sun tentou um “insec” com o Tiro Destruidor da Tristana, num ato que não só o matou, como também encerrou a vida de seu caçador.

Os europeus marcharam direto para a base inimiga, torcendo para que os death timers fossem grandes o suficiente. Levaram a torre de Inibidor da rota inferior, o Inibidor em sí e metade de uma torre do Nexus até o primeiro campeão relevante nascer. Flame tentou cortar a onda de minions, o que comprou tempo para o resto do time chegar, mas agora só o Nexus separava a Fnatic da vitória.

Ironicamente, sOAZ e Jesis — de Nautilus e Janna, respectivamente — foram os únicos a sobreviver à investida verde-e-preta e assim que morreu Broxah levou as mãos a cabeça, na adrenalina de saber o desfecho do jogo. Se não desse certo, eles certamente perderiam: havia uma enorme wave de minions batendo na base. Mas a sorte estava em favor da Fnatic e eles conseguiram finalizar.

Todos se levantaram imediatamente, aliviados. sOAZ levou as mãos à cabeça, assim como Broxah. Caps olhou para o lado esquerdo — como é costumeiro em vitórias da Fnatic —  e viu os aplausos e gritos de sua bot lane. Todos se abraçaram, cada um com um enorme sorriso no rosto. Foi difícil, mas foi um grande impulso de moral.

A comemoração de Rekkles na primeira vitória sobre a IMT (LoLesports)

Na sequência, encararam uma Marines que quase ganhara da Longzhu. Então de duas uma: ou os vietnamitas viriam no embalo ou o esforço contra os coreanos fora demais. Pela primeira vez no torneio, Broxah priorizou ganks no top, mesmo inicialmente optando pelo vertical jungling na parte inferior do mapa. sOAZ, por sua vez, transferiu sua vantagem com Cho’Gath para as outras lanes com teleportes inteligentes e muito controle de grupo. A liderança de ouro era enorme, a Fnatic atropelou e agora só precisava que os Dragões Coreanos derrotassem a Immortals.

Uma hora depois, o seed 3 da Europa estava sentado para jogar o tiebreaker. Nesse ponto, o time de Kim “Olleh” Joo-sung já estava devastado. Haviam perdido os últimos três jogos e especialmente contra a Longzhu foram 50 minutos de partida apenas para sofrer um hardcarry de PraY. Ainda por cima, o técnico Kim “SSONG” Sang-soo draftou Ezreal e Ryze, dois picks que não vinham funcionando para a equipe.

Já Dylan optou pelo inconvencional Malzahar, que aumentou o potencial de pick da Fnatic e fez a Immortals jogar com medo. Era visível a autoridade dos europeus, eles fizeram o Barão e levaram torres sem a menor contestação. A vitória veio em 27 minutos e faltava só mais um obstáculo para o sonho fanático. “Mais um!”, sinalizou Caps para a torcida chinesa quando voltava para seu computador.

Mas esse “mais um” não foi tão simples como era de se esperar. Levi limpou três campos da jungle e logo gankou top, pegando First Blood. Ele visitaria a rota mais uma vez ainda para garantir outro abate. Rekkles e Jesiz, no entanto, já estavam cansados e resolveram ganhar a lane com autoridade: derrubaram a torre em 7 minutos e tinham vantagem de 30 CS. Era a experiência tomando conta do jogo.

A GAM tentava se manter no jogo por meio de pickoffs e por muito tempo teve sucesso nessa estratégia. Mas, novamente, a bagagem foi fundamental. Aos 27 minutos — mesmo com Rekkles morto — , a Fnatic arriscou a chamada de fazer Barão. Eles haviam deixado Optimus e Levi suficientemente low para isso e assim executaram o objetivo. A GAM tentou contestar e sOAZ, que estava 0/4/1, lutou perfeitamente e encaixou um Double Kill.

Sedento, o francês continuou no ímpeto, acertando com total precisão Pedregulho, Safanão e GNAR! em membros importantes da GAM. Ele salvou a luta pelo Dragão Ancião, eliminando Noway, Optimus e Archie mesmo com eles bufados. De súbito, o placar mostrava 8/4/7, longe da pífia marca de anteriormente.

“Fnatic faz o impensável e vai para as quartas de final!” foi o que Julian “Pastrytime” Carr bradou ao fim da partida. Instantaneamente, a comissão técnica da organização irrompeu ao palco: Dylan, Finlay “Quaye” Stewart, Johan “Klaj” Olsson, Joran “Special” Scheffer e Patrik “cArn” Sättermon entraram pulando e com as mãos pro alto, e logo os nove se envolveram num abraço coletivo. Posicionaram as mãos no centro e na contagem de três exclamaram “FNATIC!”.

Fnatic fazendo o grito de guerra (LoLesports)

Era realmente o impensável. Quatro vitórias seguidas, contra todas as expectativas e adversidades. O que antes parecia uma rápida saída do palco internacional, agora era um horizonte de possibilidades. E pela frente, a favorita da casa Royal Never Give Up para impedir o milagre fanático de continuar.