Hoje trazemos para vocês uma entrevista com um cara que vem sendo destacado na fala de muitos no meio do esporte eletrônico, ele é o Rafael Pereira, que presta assessoria em psicologia esportiva para o CNB e-Sports Club, sendo auxiliado pelos Professores Doutores Psicólogos da UFSC. Muito elogiado por jogadores e staff do time seu trabalho merece reconhecimento, como ainda não é uma área muito difundida no esporte resolvemos trazer algumas informações sobre nessa conversa.Para começar nosso convidado para uma breve conversa vai se apresentar:

“Bom, meu nome é Rafael, atualmente tenho 28 anos, e faço parte de alguns laboratórios e núcleos de estudos, pesquisas e extensão da Universidade Federal de Santa Catarina, sou estudante das fases finais de psicologia. Nascido em SC, na cidade de Timbó, hoje moro em Florianópolis. Criei o projeto de pesquisa e extensão em eSports no ano de 2014, e hoje conto com dois colegas, a Maria Lucia e o Lucas, que me auxiliam nesse trabalho.”

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Vamos as perguntas então:

Como o e-Sport surgiu na sua carreira?

Na carreira mais especificamente ela apareceu quando eu percebi o quanto tinha crescido o cenário competitivo em várias camadas e modalidades de e-Sports no mundo, e fui atrás de procurar pesquisas científicas sobre o assunto. Fiquei surpreso quando não encontrei nada, por isso resolvi criar um projeto de pesquisa e extensão com a Universidade Federal de Santa Catarina, e tentar trazer esse campo para a psicologia.

Você conhecia o League of Legends antes de começar a trabalhar com a equipe?

Sim, já jogava de forma casual por alguns meses o League. Sempre achei fantástico o papel que um player faz como suporte do time.

E como surgiu a oportunidade no CNB?

Quando criei o projeto para estudar o e-sport como uma área específica da psicologia do esporte, escrevi um briefing do assunto e tentei contatar o máximo de times do cenário competitivo via email, facebook, site, todos possíveis. Alguns times retornaram o contato, porém o primeiro que agiu de fato marcando a entrevista e abrindo o espaço foi a CNB. Foi quando comecei a trabalhar com eles, inicialmente ainda de forma de pesquisa, pra criar um banco de dados para serem estudados e para melhorarmos as atividades na área.

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Conhecer o jogo influencia no seu trabalho, se sim o quanto, ou você foca 100% nos jogadores?

Conhecer o jogo é essencial para meu trabalho. As técnicas aplicadas, devem levar em conta a realidade do atleta, o que é importante dentro do jogo, pois vão além dos jogadores, já que influencia o grupo como um todo. Uma das questões por exemplo, é o fato de eles morarem juntos numa Gaming House, que muda bastante o trabalho de grupo.

Você pode nos falar um pouco da sua rotina dentro da organização?

Eu me desloco até a organização uma vez por mês, quando primeiramente acompanho a rotina, verificando o que está sendo feito e o que pode ser melhorado, depois conversamos com os jogadores de forma individual, e aplicamos técnicas para melhorar as demandas que fomos verificando durante o resto do mês. Quando não estou em São Paulo, faço o acompanhamento à distância, assistindo os jogos, ouvindo a fala deles dentro do jogo, conversando um à um e tendo encontros com eles via skype.

Para os leitores que não são da área, de que forma o psicológico pode ser determinante nos resultados da equipe?

A psicologia trabalha com várias áreas do ser humano, e duas delas são a de melhorar as habilidades cognitivas, ou seja, deixa a pessoa com atenção, concentração, foco, memória, melhores, e também lidar com questões de ansiedade, auto-confiança, coesão do grupo, entre outros. Resumindo, a psicologia ajuda a deixar a pessoa mais tranquila, focada e afiada para ter melhores resultados nos treinos e nos campeonatos.

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Muitas vezes parte das pessoas acha que tudo é diversão quando se trabalha com o jogo, o quanto a dedicação e a rotina pesada de um cyber-atleta afeta no seu psicológico?

Muito! Para manter a dedicação, o cyber-atleta tem de estar motivado, e o mesmo serve pra seguir a rotina. Como os resultados demoram um certo tempo para aparecer de forma mais consistente, é comum o atleta querer desanimar, ou não ver o motivo de estar fazendo aquilo. Por isso tentamos buscar em cada um o que eles podem colocar como objetivos internos.

Como foi a preparação de um grupo de jogadores que vieram da SoloQ após ter trabalhado com jogadores já experientes no cenário?

Posso dizer que foi gratificante. Uma vez que esses jogadores já foram escolhidos a partir de um processo seletivo diferenciado, eles já apresentavam traços de serem jogadores de alto rendimento, e consequentemente que poderiam ter um desempenho alto assim que tivessem uma rotina e treinos constantes. Eles aderiram totalmente ao nosso sistema, e por isso conseguiram demonstrar resultados positivos.

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Nas transmissões de campeonato sempre vemos os jogadores passando confiança e felizes, você consegue manter eles assim o dia inteiro ou a rotina na gaming house é mais conturbada do que aparenta?

Em nenhum momento acredito que várias pessoas convivendo sempre juntos, morando e dormindo na mesma casa, trabalhando e almoçando juntos, vão sempre estar 100% felizes e bem, é normal que tenhamos mudanças no nosso humor e que problemas possam aparecer, temos isso até quando moramos sozinhos! Porém esse grupo já foi trabalhado desde o começo para se unir, e eles são maravilhosos, conseguiram uma coesão que não é tão comum em outros times. Além disso sempre trabalhamos para que nenhum fique por baixo, dando um atendimento contínuo. Sempre que qualquer um precisa, estamos aqui para ajudar.

Como você lida quando o atleta sofre muitas criticas da comunidade para ele não desandar no decorrer do campeonato?

O trabalho feito com os atletas já é de uma conscientização. Eles sabem o quanto eles entendem e o quanto as pessoas fora do cenário competitivo entendem. Por mais que as pessoas queiram opinar para tentar mudar o time a partir do que elas acham melhor, elas não entendem realmente o que se passa dentro do cenário, todo o trabalho feito, então uma vez que eles entram, com o trabalho feito para que eles se foquem nos resultados pessoais, dificilmente eles são afetados por esse tipo de crítica.

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Em épocas de extremo stress como playoffs ou uma qualificatória seu trabalho é mais intenso? e como você faz a preparação?

O trabalho começa muito antes. Meses antes das playoffs já vamos passando técnicas de auto-confiança e para baixar a ansiedade. Assim que percebemos sinais que podem atrapalhar o desempenho, já vamos trabalhando para ajudá-los nesse sentido. Porém claro que em alguns momentos eles ficam mais ansiosos, nestes normalmente me desloco até SP e usamos algumas técnicas para eles relaxarem e se focarem melhor.

O CNB se encontra em fase de testes para montar uma nova line, como vai ser a sua participação desse processo?

Minha participação está sendo bem completa, desde elaboração do formato do processo seletivo, até a abordagem em alguns candidatos, entrevista, e repasse para o teste com os outros jogadores. Nesse processo, montamos algo que é mais interligado, todos nós participamos, todos nós opinamos e decidimos juntos.

O que esperar da psicologia dentro do e-Sport em um futuro próximo?

Eu espero que uma participação massiva e consistente! Infelizmente no Brasil vemos uma certa desvalorização desse trabalho que é essencial na vida de atletas, inclusive no esporte físico. Há uma confusão onde pensam que psicologia do esporte é como ambulatório, na hora da emergência que se chama. Mas o trabalho é muito mais extenso e completo, por isso um resultado eficaz demora tempo e dedicação. O e-Sport é uma porta de entrada nova, que podemos usar para fazer diferença e mostrar o quanto nosso trabalho afeta a vida e o desempenho desses times/atletas.

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Bom pessoal, essa foi nossa entrevista, esperamos que tenham gostado de conhecer essa área nova do e-Sport. Nosso espaço final fica para agradecermos o Rafael pela participação e prontidão em nos atender e para ele deixar um recado brevemente, então segue o recadinho do nosso entrevistado:

Um erro comum que as pessoas acreditam, é pensar que ser atleta em e-Sport é mil maravilhas. Hoje ser atleta de verdade, de alto rendimento, em qualquer e-Sport ou esporte, é puxado, é pesado. Mesmo que você trabalhe com o que gosta, você vai estar vivendo isso 24 horas por dia. Por isso nosso trabalho precisa ser hoje mais valorizado e reconhecido. Somente quando os próprios atletas do nosso cenário, entenderem o que é viver do e-Sport de forma competitiva, é que vamos ter um reconhecimento mais forte na área.

O que eu queria deixar de recado, é que gostaria de pedir à todos que acompanham o cenário de e-Sports, que dêem apoio aos seus times, aos seus jogadores. As pessoas que estão lá dentro, são pessoas capazes de melhorar, e com o apoio do pessoal, elas se motivam mais ainda a alcançar novos patamares. E da minha parte, quero agradecer o reconhecimento que tem começado a aparecer. Muito obrigado!”

Leia: A SoloQ e Você

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E ai, o que achou da entrevista? Se quiser acompanhar mais sobre o trabalho do Rafael não deixe de curtir a página que ele criou e posta conteúdos muito interessantes:

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