O Mais e-Sports teve a oportunidade de conversar com Jared Kennedy, Co-head de Esports da Riot Game, durante o Mundial 2018 de League of Legends. Eric Teixeira perguntou para o rioter sobre Mundial de LoL no Brasil, sistema de franquias, ligas universitárias e outros assuntos. Confira toda a entrevista:

Eric Teixeira: Vocês divulgaram a lista de lugares em que serão sediados os Mundiais dos próximos 3 anos, e os fãs brasileiros estão perguntando por que o Brasil não está na lista. Você pode comentar essa decisão?

Jared Kennedy: É sempre difícil decidir onde iremos. Nós fomos ao Brasil para o MSI 2017 e foi uma experiência incrível, eu estava lá pessoalmente e foi um dos lugares em que os fãs foram incríveis, alguns dos melhores fãs do mundo. Se nós queremos voltar ao Brasil? Com certeza. Quando olhamos para o nosso mapa de rotas e para onde faz sentido ir, onde já fomos e onde faz sentido para o nosso Campeonato Mundial, nós podemos assegurar que as cidades e arenas que escolhemos foram os melhores para agora. Isso não significa que não voltaremos para outros eventos, não significa que não poderemos ter o Mundial lá futuramente, só significa que para os próximos três anos, fizemos as escolhas que faziam sentido.

Eric: Você acha que o MSI no Brasil teve alguns pontos negativos?

Jared: Não! O evento no Brasil foi maravilhoso e, para nós, nós queríamos ir ao Brasil… o Brasil é um lugar caro para fazer um evento desses, mas esse não é o motivo de não irmos para lá, no entanto. Quando nós formos, iremos apesar do custo, porque a fanbase é fantástica lá. Os fãs brasileiros fizeram valer a pena quando fomos para lá, e o CBLOL é tão incrível que nós queríamos fazê-lo aparecer para o mundo e queríamos estar presentes lá, e eu fico muito feliz por termos conseguido. Então eu não ficaria surpreso se voltássemos lá, nós só não temos planos para o Mundial dos próximos anos.

Final do MSI no Brasil em 2017 – Foto: Riot Games

Eric: No Brasil, temos muita discussão sobre como o cenário de League of Legends funciona. Temos as ligas regionais e poucos eventos internacionais, ao contrário de outros jogos, como no CS:GO, que há muitos eventos internacionais, e o Brasil tem um bom rendimento no cenário de CS:GO. Para você, como Rioter, qual é a vantagem do circuito fechado, com cada um em sua região, enfrentando adversários pelo mundo uma ou duas vezes por ano?

Jared: Não existe uma resposta simples porque não tem uma forma única de fazer isso. O CS:GO tem um sucesso imenso com seu sistema de Majors… Nós tínhamos um sistema parecido também, antes de formarmos o sistema de ligas regionais. Para nós, a razão de implementarmos isso foi sobre consistência e sustentabilidade. Nós queríamos fornecer uma estrutura que os fãs pudessem investir e saber onde seus times estariam, quando eles jogariam, quando os eventos principais seriam, quando cada etapa seria, e isso funcionou para nós quando entramos no negócio do Esport, mas não tem como dizer que é o único modelo. Nós sempre estamos tentando inovar e fazer o que faz mais sentido, mas agora nós estamos satisfeitos sobre como nossas ligas funcionam ao redor do mundo, os dois splits, fazer o MSI, o Rift Rivals e finalizar a temporada com o Mundial, e ainda ter o evento All Star. Nós estamos animados sobre o que as ligas regionais fazem pela fanbase local, porque você pode ter uma fanbase brasileira muito engajada focada no CBLOL e isso se tornar global em certos eventos, então isso funciona para nós.

Eric: Nos EUA, o sistema de franquias realmente funcionou, e ele será implementado na Europa no ano que vem, além da TCL e na China também está funcionando. No Brasil, os fãs perguntam se vocês tem intenção de trazer o sistema para regiões menores, como o Brasil, e em quais são os pontos fortes do sistema de franquias.

Jared: Primeiramente, você disse “regiões menores”, e nós não consideramos o Brasil uma região menor. Nós entendemos o Brasil como uma região muito importante para o nosso cenário, e a decisão de se ou quando adotar o sistema de franquias cabe ao time local da Riot no Brasil. É uma decisão brasileira que deve ser a decisão correta para os parceiros no país e para o LoL no Brasil. Cada situação é diferente e diversas coisas podem acontecer. Eu sei o que eles estão visualizando, e eles estão sempre buscando formas de fornecer a estrutura certa para que a liga mantenha a sustentabilidade e o melhor para o ecossistema no Brasil. Mas nós não temos nenhum plano para anunciar hoje.

Eric: As coisas estão indo bem nos EUA [Com o sistema de Franquias]?

Jared: Nós estamos felizes por termos parceiros lá que nos ajudam a ser melhores. Dispostos a investir no cenário, principalmente a longo prazo, e trazendo a especialização que não temos. Porque juntos, nós somos melhores do que se estivéssemos tentando fazer isso sozinhos.

Cloud9 e os dois novatos chegaram de forma inédita nas semis do Mundial – Foto: Riot Games

Eric: Nos EUA, existe o sistema Academy. No esporte tradicional, existem jogadores que começam quando são muito jovens, crianças, e começam a praticar futebol, basquete e outros esportes… mas com os Esports é diferente, os jogadores começam a praticar como profissionais quando são muito mais velhos. Vocês pensam em algo sobre isso? Começar a desenvolver jogadores quando eles são mais jovens, como com 11 ou 12 anos?

Jared: É uma boa pergunta. Toda vez que você constrói um esporte, você precisa ter um “caminho para ser profissional” (path to pro). E esse nosso caminho começa um pouco mais tarde. Nós estamos ativamente investindo em descobrir como é o restante da pirâmide. Se você pensa em um esporte norte-americano como a NBA, você tem 300 jogadores que são os melhores do mundo, que jogam na Associação Nacional de Basquete (NBA), mas você se depara com várias outras ligas profissionais ao redor do mundo e, antes disso, você tem as ligas amadoras e, antes disso, jogadores casuais, e antes disso o parque local. Para nós, você tem a soloq, você tem o cenário profissional, o cenário Academy e o universitário. Nós estamos investindo em meios de ter outras estruturas e processos para que hajam mais maneiras de que os jogadores consigam seguir esse caminho, do jogador amador ao profissional, e muito vai acontecer, do nível regional ao nível local. Não será um formato que abranja todas as regiões, porque na China, por exemplo, funciona de uma maneira muito diferente dos Estados Unidos. Mas estamos muito focados em construir o aparato e a estrutura para apoiar jogadores nessa jornada.

Eric: Sobre o cenário universitário, é muito difícil que uma pessoa que esteja na faculdade deixe sua universidade para seguir como profissional…

Jared: Sim, se você vai para a faculdade, você provavelmente não se tornará um profissional. De qualquer forma, isso não é um plano b ruim. Você pode precisar de uma bolsa para ir para a universidade. Um jogador que jogue com certa frequência e tente alcançar o CBLOL ou a LCS, ou a LPL e isso talvez não der certo, tem outros caminhos igualmente atraentes no sentido de investimento de tempo. Isso pode ser muito poderoso quando você está tentando criar um ecossistema. Essas são as coisas nas quais estamos focados. O cenário universitário não será um substituto ou talvez não seja um portão para o cenário profissional, mas pode ser uma oportunidade positiva.

Eric: Quão importante foi o patrocínio do Mastercard nesse mundial?

Jared: Muito importante. Nós estamos muito felizes por trabalhar com o mastercard por duas razões. A primeira é que isso tem a vez com o que tentamos fazer desde sempre. Encontrar bons investidores que entendam nosso esport e que queiram entrar a longo prazo. Nós trabalharemos com o Mastercard por um bom tempo, eles veem o poder que a comunidade tem. Sempre que podemos fazer algo que ajude o esport e diretamente agrega valor à experiência dos fãs, é incrível para nós. Estamos muito felizes.

Eric: Quando vocês anunciaram o Mastercard, outras marcas se interessaram?

Jared: Nós temos conversado com muitas marcas, mas sempre que você consegue um patrocinador como o Mastercard, que é um patrocinador não-endêmico que patrocina o maior esport do mundo, vindo e dando as mãos a nós a fim de construir o futuro do LolEsports, é uma atitude grande no mercado. Definitivamente nos ajuda no que estamos tentando construir sobre sustentabilidade no esport. E, a segunda, é uma validação da nossa estratégia, ir atrás de grandes marcas. Tentamos ir atrás de boas parcerias que priorizam o jogador, e isso requeriu um pouco de paciência, muitas vezes chegamos a perguntas como “por que vocês não fecham com essa marca?”, “por que não fazer isso mais rápido?” e precisamos fazer um balanceamento entre acelerar o mercado e conseguir exatamente o que queremos. Agora, nós sentimos que podemos colocar o pé no acelerador e acelerar a monetização.

Eric: Nós temos a Coreia, que venceu boa parte dos Mundiais antes desse, e agora temos uma final de EU x China. A Riot fez algo para que a dominância coreana fosse amenizada?

Jared: É um crédito para a comunidade, que vem investindo no esport no mundo inteiro. Nós temos times muito fortes na China e na Europa, muitos investidores e profissionais que investem seu tempo e recursos para tornar o cenário competitivo possível. League of Legends é um esport global que tem sido dominante por anos, mas sempre falamos sobre o vão estar fechando, e isso é uma prova da natureza global do esport. Passei muito tempo pensando sobre isso e eu não acho que existam muitos esportes em que haja essa paridade global. Se você olhar para os melhores times de futebol do mundo, você consegue pensar na Europa e na América do Sul, Brasil e Argentina. Se você olhar para o basquete, todos os melhores clubes estão nos EUA. Se você olhar para o LoL, você tem alguns ótimos times na China, outros ótimos na Coreia, um europeu na final, a Cloud9, que esteve nas semifinais, e você começa a perceber que é um esporte global, e nenhum esporte, no meu conhecimento, cresceu globalmente. Os esportes começaram em algum lugar e se espalharam — League of Legends tem sido global desde o começo, e sentimos que isso é muito especial. A Coreia é a casa dos esports, é onde os esports efetivamente foram inventados. Eles foram os primeiros a terem técnicos, os primeiros a terem managers, os primeiros a terem substitutos. Mas as pessoas olham, aprendem e adaptam, e se tornou o que vemos hoje, e nós não poderíamos estar mais orgulhosos do que o esport é hoje e o que está se tornando. Teremos um time Europeu e um Chinês na final. Teremos um campeão não-coreano pela primeira vez desde 2012. Isso é muito especial.

Entrevista realizada por Eric Teixeira e transcrita por Evelyn Mackus