Antes do início da liga de Rainbow Six Siege do Mad Hatter, etapa intermediária do circuito feminino promovido pela BBL, ficava a dúvida de quem poderia quebrar a polarização que Brazilian Crusaders e Resilience E-Sports consolidaram no cenário nos últimos tempos.

Muito se falou da Team Brave Soldiers como sendo a terceira força que pudesse quebrar com essa disparidade. Prestes a começar a terceira semana de confrontos do campeonato, porém, uma equipe se apresentou como a surpresa positiva capaz de dar trabalho tanto para BRC como para RSL: é a line-up da Athena’s e-Sports, atualmente segunda colocada.

O time formado por Lara “Pessima8” Alencar, Gabriela “GaB” Scheffer, Ana “ana” Nunes, Paula “PauleteZ” Nogueira, Beatriz “yElektra” Silva e Lidiane “Nightingale” Pimenta demonstrou muita evolução da primeira para a segunda rodada do Mad Hatter.

A equipe subiu da quarta colocação para a vice-liderança com méritos e já desponta como candidata para brigar pelo topo da tabela. A proposta da Athena’s é clara: ser uma equipe com DNA bastante ofensivo, como explicou o coach Patrick “H4wKzeera” Peres em entrevista exclusiva ao Mais Esports.

“Estamos treinando para melhorar sempre nosso jogo. É uma proposta muito boa ser agressivo, poucos times fazem isso.”

O que permite essa proposta de jogo são os cinco meses de formação da line-up, como comentou GaB. “Como temos um bom tempo de jogo juntas, isso facilita nossas interações in-game, buscando o foco para o nosso entrosamento ficar em dia.”

Os cinco meses jogando junto já dão frutos para a line da Athena’s

Pode parecer pouco, mas diante da realidade do cenário feminino no país, que muitas equipes se desmontam facilmente e não ganham sequência, a Athena’s tem uma base sólida para se firmar de vez como uma das principais forças do país.

A evolução evidenciou três pilares dessa proposta de jogo sufocante: agressividade, rotações e controle emocional. Antes de olhar para essas virtudes, porém, é preciso ter em mente os…

ERROS COMETIDOS ATÉ ENTÃO

Na estreia do Mad Hatter, a Athena’s e-Sports ganhou a partida diante da MedusaPlayers, mas perdeu logo depois para a BRC nas semifinais. A derrota por 7 a 3 já teve no primeiro round o roteiro que aquela partida traria: uma Athena’s com dificuldades para incomodar a defesa adversária – logo de começo, o time simplesmente não pisou dentro do mapa.

“Temos focado um pouco mais na organização do nosso ataque, seja em posicionamento, em refrag ou mesmo dronagem”, avaliou Paulete. “Nosso ataque ainda está longe do ideal ou o do que nós consideramos que seja bom, mas percebemos uma evolução nos últimos treinos e jogos. Organização é algo essencial para um bom ataque e estamos trabalhando bastante nisso.”

H4wKzeera admitiu que faltou melhor organização, de fato, para quebrar com a defesa da Brazilian Crusaders. Quando o time conseguia entrar no bombsite, era numa progressão rápida, mas sem buscar as melhores condições.

A Athena’s sofreu muito contra a BRC na primeira rodada: no round de início em Litoral, a equipe não conseguiu sequer pisar dentro do mapa

Athena’s não conseguia entrar no mapa logo no primeiro round contra a BRC pelo Dia #1Foi o que aconteceu na segunda rodada, quando as atacantes realizaram o plant, mas, por não terem caçado as roamers, foram castigadas. “Demoramos na dronagem e no domínio do mapa para trabalhar o plant – o que influenciou muito nesse round e em outros também.”

A Athena’s ainda se viu forçada a mudar de postura quando percebeu que não estava incomodando principalmente as âncoras. “A nossa proposta foi mudar o estilo de jogo para mais ativa, fazer coisas que não tínhamos feito ainda”, disse o coach.

Mesmo assim, o time viu parciais amargas de 5 a 1 na virada de lados naquele Litoral. H4wKzeera até compreendeu depois o motivo de tanto sofrimento. “A nossa defesa está em constante mudanças e, principalmente, nosso ataque também. O que realmente prejudicou drasticamente foi o nosso ataque. Estamos trabalhando muito em cima disso para melhorar cada vez mais e além disso o fator psicológico que já estava cansado e muito emotivo.”

As âncoras da BRC pouco foram incomodadas em Litoral

Até mesmo pela forma como se deu a derrota, nada passou despercebido pelos olhos de H4wKzeera quando estudou os erros cometidos até então. “Treinamos durante a semana em cima dos erros e testando coisas diferentes. Essa semana que passou estamos treinando muito mais. A execução foi boa, tivemos uma melhora drasticamente. Estamos treinando muito mais para chegar mais forte no próximo sábado.”

E, de fato, de uma semana para a outra, incluindo partidas do qualificatório aberto para o Circuito Feminino promovido pela Ubisoft, a Athena’s evoluiu de forma significativa. O time que não conseguiu pisar dentro do mapa até então deu muito trabalho para a BRC pelo Dia #2 do Mad Hatter.

Sendo assim, é preciso olhar com muita atenção para…

A EVOLUÇÃO

A Athena’s e-Sports teve três compromissos pela segunda rodada do Mad Hatter. Logo de cara, vitória em cima da ProBono E-Sports por 1 a 0 – que não teve transmissão. A comunidade, entretanto, pôde ver a equipe em ação na semifinal diante da MedusaPlayers (1 a 0) e depois na finalíssima contra a Brazilian Crusaders (derrota por 2 a 0).

A evolução da equipe, porém, foi o ponto a ser destacado da rodada mesmo com o vice-campeonato. Três pilares sustentaram o novo DNA:

Agressividade

É o principal recurso da Athena’s para sufocar os adversários. Isso se dá pelos atributos que o time apresenta em termos coletivos e individuais, o que favorece essa proposta. As estratégias colocadas em práticas valorizam o melhor de cada pro player num comum acordo de agressividade.

O que garante toda essa intensidade é o papel desempenhado pela intermediária ana, que faz coberturas eficientes para dar tranquilidade para as amigas. No quinto round em Fronteira contra a Brazilian Crusaders, o trabalho dela em proteger o after plant foi muito preciso: desativador iniciado em arquivos e ela pegou o ataque pelas costas avançando pelo arsenal.

A cobertura de ana é o respiro necessário principalmente para as suportes fazerem o trabalho delas

A cobertura de ana é necessária para que as suportes PauleteZ e Pessima8 tenham tranquilidade para buscar informações de forma constante. São jogadoras bastante incisivas no uso de drones, câmeras ou gadgets para reportar tudo o que acontece pelo mapa.

Isso pode ser visto na forma como PauleteZ aproveita os operadores, por exemplo. Como afirmou o coach, “é característica dela ser agressiva quando é preciso.”

Foi o que vimos logo na primeira rodada da semifinal, quando ela foi mais incisiva com o sensor cardíaco pra dar informação ao restante do time mesmo em momentos que poderia ter apostado numa marcação vertical.

É um estilo que, como a própria jogadora comentou para a reportagem, se estende para outros agentes como Valk e Mozzie, principalmente, mas também Maestro e Echo.

Pessima8 também gosta de agressivar com os operadores. O quinto round em Clube diante da BRC foi prova: a jogadora investiu no avanço do Yokai do quarto até academia só para evitar o plant e ainda spotar a atacante – que foi abatida logo em seguida. O lance pode, inclusive, ser visto no vídeo a seguir:

“Usar Yokai mais avançado depende muito do momento, eu prefiro jogar com ele mais pra frente do que só usar para parar o plant”, disse Pessima8. “Houve momentos que consegui parar uns plants e trazer o round pra gente, mas não usei só pra isso.”

Essa postura das suportes reflete diretamente no posicionamento das entry fraggers yElektra e, principalmente, GaB. O que também acontece no ataque, já que Pessima8 e PauleteZ passam as informações via dronagem para que elas se arrisquem mais na linha de frente.

GaB é a ponta de lança da Athena’s: é quem fica sempre mais adiantada

“Elas são como um alicerce”, exaltou yElektra. “Os drones e as câmeras são essenciais para que eu possa desenvolver bem a minha função. Rotacionar não é nada fácil, mas elas tornam isso melhor.”
As andarilhas, inclusive, dão maior profundidade à agressividade da Athena’s por causa das…

Rotações

Quem viu a Athena’s jogar no Dia #2 de Mad Hatter se impressionou com a forma como o time quebrava o adversário de uma hora para a outra. Isso se porque GaB e, principalmente, yElektra rotacionavam pelo mapa – seja no ataque como na defesa.

“Eu adoto um jogo mais agressivo e tento ter uma boa visão de jogo até porque tem que saber a melhor hora para fazer uma rotação segura e eficaz”, comentou yElektra. É um jogo de risco, como a própria entry fragger admitiu. “Infelizmente nem sempre isso dá certo, o que pode desestruturar todo o time.”

O oitavo round em Fronteira diante da BRC foi um dos momentos em que a Athena’s quebrou com a espinha dorsal adversária por causa dessas rotações. yElektra, que se sobressai mais no quesito, percorreu o mapa todo pelo piso inferior quando foi avisada que o ataque estava dando início ao progresso final para o arsenal.

Ela apareceu na escadaria central para eliminar Myss1, que estava num posicionamento que engessava qualquer transição da defesa entre os bombs. Depois, yElektra gastou muito tempo no duelo com a Thaii. Mesmo sofrendo a kill, ela conseguiu segurar bem a entry fragger – que não pôde fazer muito nos segundos finais para ajudar no plant.

Procure pelo termo “rotação” no dicionário de R6 e não se assuste ao achar o nick de yElektra

Esse trabalho de rotação feito por yElektra é um dos pontos fortes da Athena’s. O coach é só elogios. “A Elektra é uma jogadora espetacular. Ela consegue fazer o papel dela e ter uma visão de jogo muito boa. Uma das melhores players no cenário feminino atual.”

Para isso, contudo, claro que informação é importante, mas é preciso levar em conta também o…

Controle emocional

A tranquilidade demonstrada pela Athena’s e-Sports no último final de semana de Mad Hatter foi de tirar o chapéu. A semifinal contra a MedusaPlayers já demonstrou como o time estava bem preparado nesse quesito. Foi um jogo bastante tenso na primeira metade disputada em Clube.

Pelo ritmo apresentado entre as equipes, o aspecto emocional poderia pesar a qualquer momento – o que aconteceu para a Medusa já que, na virada de lados, sentiu o desgaste e passou a errar na execução das táticas.

H4wKzeera falou um pouco sobre. “A gente conversou antes da partida. Tivemos uns minutinhos antes. Nos primeiros rounds, porém, começamos meio afobados, mas no decorrer do jogo fomos melhorando nosso desempenho.”

as inscrições para o Dia #3 do mad hatter estão abertas

Essa guerra psicológica também foi travada contra a BRC. A diferença de postura da rodada de estreia em comparação ao Dia #2 foi significativa quando a Athena’s se viu começando o mapa no ataque. Se no primeiro duelo elas sofreram bastante, agora a história foi bem diferente.

Detalhe que a Athena’s iniciou no ataque no segundo confronto da md3. Ou seja, a pressão era enorme – ainda mais porque a BRC tem uma defesa muito sólida. Acontece que o time foi pra virada de lados com 3 a 3 nas parciais – resultado impressionante pelas condições em jogo.

Muita gente ficou surpresa, menos o coach – que até lamentou a segunda metade daquele mapa. “Entramos [em Fronteira] com o mesmo foco que no primeiro mapa. Nossa defesa é mais sólida, mas, infelizmente, nosso ataque ainda é meio complicado. Estamos consertando a cada dia que passa para melhorarmos cada vez mais.”

Mesmo sofrendo o comeback, ficou muito visível que a questão não foi o controle emocional. Esse atributo estava em dia – e quem materializou isso foi yElektra, que havia aplicado um ace em Clube quando a partida estava com map point à favor da BRC como você pode ver no vídeo a seguir:

“Foi impressionante! Para ser bem sincera eu nem percebi que havia feito 5k até as meninas falarem no final da partida. O nosso ataque até então estava muito recuado e resolvi agressivar direto para o bomb, mas não imaginava que daria certo. Quando percebi, havia levado todo mundo. Foi impossível não hypar!”

Mesmo não tendo percebido a jogada épica, yElektra sabe como que ela foi construída. “Calma e concentração foram a chave mestra naquele momento.”

Esse controle emocional é bastante necessário, até mesmo porque a…

PRESSÃO É MAIOR AGORA

A evolução é constante, portanto, mesmo que a Athena’s tenha apresentado uma performance muito positiva no último final de semana, a equipe sabe que não pode parar por aí. Até mesmo pelo destaque que ganhou no Dia #2 do Mad Hatter, o time pode sofrer mais nesse sábado (29) pela terceira rodada por ter mais material disponível a ser estudado pelas adversárias.

PauleteZ até sabe onde é preciso melhorar, mas escondeu o jogo. “Falta muita coisa ainda. Nós sabemos bem todos os pontos em que a equipe precisa melhorar, tanto individual quanto coletivamente. A cada treino temos trabalhado nisso. Nosso coach e o nosso analista tem pontuado cada um dos nossos erros – e aos poucos estamos tentando corrigir. Estamos sempre em busca da evolução.”

Reserva, Nightingale tem papel muito importante nesse trabalho tático. Como acaba vendo todas as partidas, ela também dá seus pitacos para auxiliar o coach no que for necessário.

“Busco estar presente com elas nas partidas e treinos de modo a incentivá-las e dar apoio – seja perdendo ou ganhando. Quando vejo que há algo em que posso ajudar ou pontuar, expresso minha opinião à elas e ao coach. Acaba sendo algo que já costumamos fazer e, com isso, buscamos alinhar os pontos de vista de cada um.”

Todo esse trabalho só é possível por conta da humildade que a Athena’s demonstra. É saber seus limites, exaltar as virtudes e corrigir os defeitos. A evolução, como reforçou PauleteZ, é à todo momento.

“O primeiro passo é enxergar os erros e querer consertar e melhorar. E isso não falta pro nosso time. Nossa evolução tem sido constante, e nossa meta é essa, sempre.”

Agora é esperar para ver se a Athena’s e-Sports se consolidará como uma das principais forças do Mad Hatter. Pela evolução demonstrada, tem tudo para seguir firme na briga pelo pelotão de cima.