Era um dia importante para Lee “Rush” Yoon-jae. Em algumas horas ele iniciaria a primeira campanha de playoffs com as cores alvicelestes da Cloud9, na tentativa de tirar a organização de seca de dois anos. Talvez mais importante que isso, era a chance de provar que tinha o necessário para ir longe no mata-mata e ser campeão da América do Norte no Spring de 2016.

No ano anterior, ele havia criado fama na Team Impulse pela facilidade com que chegava no posto mais alto da fila ranqueada, assim como pela agressividade com campeões como Lee Sin e Nidalee. Essas características e a sinergia com Jung “Impact” Eon-yeong o garantiram o título de Melhor Jogador do Summer Split de 2015. No fim, todavia, Rush se viu derrotado nas duas semifinais e longe de levantar o troféu.

Rush em ação pela TiP (LoLesports)

A nova fase com a C9 começou tão bem quanto possível. Com um roster novo e um mid improvisado na posição de suporte na forma de Hai “Hai” Lam, eles conseguiram a terceira colocação atrás apenas da implacável Immortals e da eventual vencedora CLG.

Rush seguiu produzindo jogadas de efeito ao longo da temporada, como o outplay sobre Choi “Huhi” Jae-hyun no qual desviou da Barragem de Mísseis do Corki com Flash. Ele e Nicolaj “Jensen” Jensen se mostraram uma dupla explosiva, uma parceria talvez até mais impressionante que a com Impact.

Ao mesmo tempo, a adversária das quartas-de-final TSM só mantivera Søren “Bjergsen” Bjerg em relação ao ano anterior. Por mais que tivesse uma formação “recheada de estrelas”  –  como foi repetido com frequência na época pelo cenário norte americano  - , eles tiveram dificuldades em se adaptar aos novos companheiros.

Dennis “Svenskeren” Johnsen e a bot lane de Yiliang “Doublelift” Peng e Bora “YellOwStaR” Kim, em especial, jogaram muito abaixo do esperado. O dinamarquês só conseguiu ótimo desempenho com Graves, enquanto a rota inferior tinha estilos completamente diferentes. Por isso, quando Rush acordou naquele dia 2 de abril, tudo indicava que ele limparia o chão com a rival alvinegra e avançaria para o próximo estágio.

Por volta das onze da manhã, o elenco de An “Balls” Van Le, Rush, Jensen, Zachary “Sneaky” Scuderi, Hai e reserva Michael “Bunny FuFuu” Kurylo já estava no térreo da gaming house. Eles papearam sobre coisas triviais, como se estavam esquecendo o crachá para entrar no estúdio ou sobre qual alimento traziam na mochila.

Chegaram na sala exclusiva da Cloud9 meia hora depois e o clima continuava bom. Entre olhadelas para o jogo entre Fnatic e Vitality que acontecia simultaneamente na Europa e ao desenho na meia de Rush  –  que se assemelhava a Daerek “LemonNation” Hart  - , nada parecia preocupar o grupo.

Rapidamente o primeiro jogo da série chegou e nesse mesmo ritmo ele acabou: Jensen se aproveitou do pick de Twisted Fate para impactar as rotas vizinhas, o que fez com que a esquadra vencesse num stomp de 25 minutos. Essa destruição, contudo, pode ter sido fator importante para o que aconteceu em seguida. O time de azul-claro começou a jogar de forma descuidada, talvez até pretensiosa. Escolheram Zed para a rota do meio, campeão com o qual não haviam jogado na fase regular.

A TSM reagiu. Retrucou na mesma moeda e passou a bater a Cloud9 com tranquilidade. Rush ficou preso ao pick de Kindred  – com o qual ele claramente não estava confortável  – e a cada mapa que passava teve um desempenho pior. Para ser justo, o erro foi da comissão técnica em não notar a armadilha no draft preparado por Parth “Parth” Naidu.

Rush durante partida contra TSM (LoLesports)

Para se ter uma noção, o coreano terminou o primeiro jogo com um placar de 2/1/11. Foi comunicativo e se impôs para avaliar se ganhariam ou não determinadas lutas. Nos outros três, porém, ficou com marca de 6/20/7, sendo então o que mais morreu em Summoner’s Rift aquele dia. Deu também para perceber que, quanto mais perdiam, menos ele falava.

Assim, depois desse fracasso a Cloud9 resolveu se reformular ao trazer Impact, William “Meteos” Hartman e Andy “Smoothie” Ta. Isso na verdade significou a barração de Rush, que teria que ficar na reserva por seis meses por causa da regra de apenas dois estrangeiros. Mas por azar, a Riot no meio do caminho mudou o regulamento e a espera teria que ser de mais dezoito meses.

“GG. Argh, esse é o nosso último jogo… Nesse split”, foi a última frase do caçador antes de se levantar para cumprimentar os adversários da TSM. Essa pequena pausa pareceu sem propósito naquele momento, mas em retrospectiva, poderia ter significado que ele já pressentia o fim daquela line-up.

Rush, então, voltou para a terra natal no intuito de recuperar destreza e concentração, bem como tentar entrar em alguma organização local. Diariamente ele abriu stream para interagir com os espectadores e se dedicar a melhorar de colocação na ranqueada. Mas logo percebeu-se que ele não conseguia alcançar as mesmas alturas de antigamente. Ele ganhava muito dinheiro com streams, mas para um jogador competitivo como ele não valia a pena trocar a habilidade e a chance de voltar às competições pelos valores financeiros. Logo, misteriosamente ele deletou todas as mensagens das redes sociais, parou de fazer transmissões e sumiu.

“É o fim de Rush?”, “A época dele passou?”, “Será que ele conseguiu sair do Diamante?”, ecoava nos fóruns online. O fato era que não se sabia essencialmente nada do coreano. Se estava jogando bem, se desistira da vida de profissional ou até mesmo se estava vivo.

Inesperadamente, porém, a kt Rolster anunciou a contratação do “kind boy”.

A segunda maior organização da Coréia do Sul montara um super time no ano anterior, trazendo Song “Smeb” Kyung-ho, Heo “PawN” Won-seok, Kim “Deft” Hyuk-kyu e Cho “Mata” Se-hyeong para jogar ao lado de Go “Score” Dong-bin. O experimento acabou fracassando, mas os cinco continuaram juntos para o ano de 2018. Isso e o fato de Score ter sido o melhor jungler dos últimos anos fez com que o público considerasse esse recrutamento como pura publicidade.

Durante toda a LCK Spring 2018 os fãs ficaram na expectativa pelo primeiro confronto de Rush. Os próprios narradores do campeonato atiçavam a audiência com frequentes indicações de que ele jogaria, apenas para no fim ser Score na cabine de jogo.

Até que a última semana da fase regular chegou e um novo jogador atingiu o posto de número um na soloqueue: era Rush. Jogando majoritariamente de Camille, Olaf e Sejuani  –  escolhas diferentes da champion pool de outrora - , ele ultrapassou o companheiro em treinamento Hwang “Kingen” Seong-hoon e finalmente provou que ainda tinha talento. Restava só iniciar oficialmente.

Quatro dias depois, a hora do Rush chegou: a kt fecharia a temporada contra a ressurgente Afreeca Freecs, com uma série na qual nada estaria em jogo. Era a ocasião perfeita para o debute. O caçador, junto dos companheiros, começou a organizar os equipamentos dez minutos antes dos picks e bans se iniciarem. A notícia correu rapidamente e logo a transmissão se encheu de torcedores.

Rush sorridente em partida contra Afreeca (DailyEsports)

A partida não poderia ter sido melhor. O time alvirrubro venceu por 2 a 0 e com tudo que se podia ter direito. Perfect Game, Lee Sin selecionado para Rush mesmo estando fora do meta e o combo do campeão para fechar com chave de ouro. E nada de nervosismo por estar jogando em frente a multidão.

O coreano ainda voltou a jogar como titular nos playoffs, onde enfrentaram SK Telecom e novamente Afreeca. Eles terminaram eliminados nas semifinais, mas deu para notar o real potencial da aquisição dele: Rush iniciaria as partidas  -  como que para reconhecer o campo de batalha  –  e Score entraria mais tarde para aplicar o que absorveu. Concomitantemente, o primeiro poderia aprender com o melhor do mundo e progredir muito mais rápido.

Depois de tantas falhas e dúvidas na carreira, Rush tem a oportunidade de se desenvolver como nunca antes. Não só isso, mas também pode ser a adição que a kt precisava  –  junto de Son “Ucal” Woo-hyeon  –  para dar o próximo passo e vencer troféus. Os ingredientes estão lá, basta saber se eles saberão usar.