“O CBLoL mais disputado de todos os tempos”. Essa é uma frase conhecida por todos os espectadores do League of Legends brasileiro, utilizada em tantas ocasiões pelos narradores que acabou se tornando uma piada. Mas finalmente, depois de seis temporadas com o atual formato, tal bordão pode ser usado veementemente.

Tudo começou quando, pela primeira vez, três times do Circuito Desafiante garantiram acesso à elite do país. TShow, Team oNe (na época INTZ Genesis) e ProGaming substituíram Brave, Operation Kino e KaBuM, respectivamente. Para o cenário, foi um sopro de ar fresco que deu oito novatos e já sugeria um aumento no nível da competição.

Não satisfeito, o campeonato contou com desfechos inesperadas como Keyd Stars fora dos playoffs pela primeira vez, RED Canids com desempenhos irregulares após ser campeã, CNB à beira do rebaixamento, mas principalmente oNe e PRG tomando conta da liderança por boa parte do trimestre. Depois de um campeonato muito apertado e semi-finais inusitadas, esses são cinco enredos para a final do CBLoL.

Sem expectativa, sem problema

No início da etapa, dois times eram os claros favoritos para o título: RED Canids e Keyd Stars. Isso porque os dois haviam sido finalistas anteriormente e, com rosters empilhados de jogadores de renome, tiveram ainda mais tempo para se entrosar. INTZ e ProGaming também eram citados, mas não fugia muito disso. Poucos pensavam que paiN e principalmente oNe chegariam muito longe no campeonato.

A paiN acabara de perder seu histórico caçador Thúlio “SirT” Carlos e mesmo com ele as atuações foram irregulares no Verão. Rodrigo “Tay” Panisa era uma escolha arriscada para a posição e não dava para saber como ele se sairia como titular. No par de jogos como titular do primeiro split, foi o pior em Participação em Abates (46,5%), Parcela de Mortes (35.7%) e Posicionamento e Destruição de Sentinelas (0,51/m e 0.19/m, respectivamente), mesmo ganhando.

Matheus “Mylon” Borges durante semi vs INTZ (Riot Games)

A Team oNe, por sua vez, subira como vice-colocada do Circuito Desafiante em uma série apertada contra a Operation Kino. No pós-temporada, contrataram Alanderson “4LaN” Meireles e Bruno “Brucer” Pereira, o que adicionava experiência e ainda mais habilidade a um esquadrão de novatos.

A classificação se deu na última rodada. Por mais que a oNe tivesse figurado o top 4 pela total duração do campeonato, eles tropeçaram nas três últimas rodadas, onde somaram apenas um ponto. Isso deixou em risco a vaga. Já para a paiN, ela veio no último momento possível. Isso porque eles dependiam dos resultados de PRG e Keyd para classificar e só o fizeram por causa do tempo combinado de vitória da primeira.

Por isso, se você dissesse que tanto paiN quanto oNe tirariam as vagas de Keyd e PRG para os playoffs, assim como derrotariam INTZ e RED para chegar na final, seria tachado de louco. A maioria exorbitante dos analistas e fãs do campeonato previu que as duas equipes perderiam nas semi-finais e contra todas as expectativas eles avançaram.

O Caminho Real da Team oNe

A Coréia do Sul é dona de muitos termos relacionados aos esports. É de se esperar, pois o país é um dos precursores da modalidade e domina qualquer jogo que decide investir tempo e esforço. Uma dessas expressões é “Royal Road” — “Caminho Real” em português — , que é quando, em uma temporada, um time ascende da segunda divisão nacional seguindo todo o caminho até o troféu de campeão.

A equipe mais recente a tentar fazer isso foi a Meta Athena, do cenário coreano de Overwatch. Eles dominaram o APEX Challengers Season 2 com um placar de 11 vitórias a 0. Depois, subiram para a liga principal e se encontraram num grupo com Team EnVyUs, os vencedores da edição anterior. Munidos com a habilidade de Kim “Libero” Hye-sung e Ha “Sayaplayer” Jeong-woo, não se assustaram e derrotaram não só os antigos campeões, como também as potências Afreeca Blue e Kongdoo Panthera. Num jogo apertado, no entanto, perderam para os eventuais vitoriosos da Lunatic Hai e deram adeus ao torneio.

João “Marf” Piola na partida de classificação para o CBLoL (Riot)

Similarmente, a oNe pisou no estúdio do CBLoL e de cara atordoou a Keyd Stars numa surpreendente vitória por 2 a 0. Na semana seguinte, desbancaram a INTZ com outro placar limpo. E assim foram avançando com duas vitórias sobre TShow e CNB, um empate contra a paiN e duas derrotas para PRG e RED. Nos playoffs, derrotaram a Matilha em uma série que eram indubitavelmente os azarões.

Se o time comandado por Vinicius “Neki” Ghilardi levar a final no Sábado, eles poderão replicar a campanha da Meta Athena, só que ainda melhor. Eles terão feito a trajetória completa do Circuito Desafiante até o Mundial, tudo em um split. Será que conseguirão entrar no hall dos times que conseguiram esse feito?

Os 3 novatos na final

Quando um time com muitos novatos sobe para alguma liga principal no LoL, é interessante observar seu desenvolvimento ao longo da competição. Foi assim no ano passado com a MVP na Coréia, no início do ano com a Misfits na Europa e agora com a oNe aqui no Brasil. A equipe preto-e-dourada veio com João “Marf” Piola e Luís “Absolut” Carvalho como completos estreantes no maior palco do país, assim como Álvaro “VVvert” Martins que jogou apenas dois jogos pela KaBuM em 2016.

Team oNe na partida decisiva para chegar nos playoffs (Riot Games)

É a primeira vez desde o segundo split do ano passado que tantos jogadores estreiam pelo mesmo time. A BigGods foi a última a fazê-lo — com quatro novatos — e coincidentemente Ygor “RedBert” Freitas fez parte do time. Contudo, não foram bem e terminaram rebaixados em seguida.

Os principiantes da oNe têm a chance de alcançar o feito inédito no Brasil de vencer o CBLoL na primeira tentativa. Gustavo “Baiano” Gomes e Gabriel “Turtle” Peixoto tiveram essa ocasião pela Keyd, mas foram derrotados pela INTZ por 3 a 0. A partida não só valia o título, como também daria vaga no International Wildcard Invitational. Agora valendo vaga para o Mundial, será que a oNe vai agarrar essa oportunidade?

A mística do ano ímpar

Você já deve ter ouvido falar na teoria do ano ímpar da paiN. Em 2013, eles venceram o CBLoL com Fabio “Venon” Guimarães, SirT, Gabriel “Kami” Bohm, Felipe “brTT” Gonçalves e Martin “Espeon” Gonçalves. Perderam, um mês depois, no International Wildcard para o Mundial e o time se dividiu. Depois, em 2014, mesmo contratando os coreanos Han “Lactea” Gi-hyeon e Kim “Olleh” Joo-sung, não foram capazes de vencer nenhum campeonato oficial da Riot.

A segunda vitória da paiN, em 2015 (Riot Games)

Para o ano seguinte, contrataram Hugo “Dioud” Padioleau e Whesley “Leko” Holler, mas apenas quando substituíram o topo por Matheus “Mylon” Borges que o time voltou a engrenar. Com ele, derrotaram a INTZ na final e conseguiram a classificação para o Mundial. Reparou no padrão? A paiN venceu dois Campeonatos Brasileiros de anos ímpares e agora vai tentar o tri-campeonato após um 2016 apagado.

Acreditar em místicas é algo duvidoso, mas tem algo em relação às campanhas da paiN que torna isso inevitável. Por duas vezes consecutivas, a organização falhou em obter resultados no ano par, assim como no primeiro split do ano ímpar, tudo para se recuperar e chegar na final do segundo split. É como se algo clicasse lá dentro e as engrenagens rubro-negras passassem a funcionar. Se isso acontecer mais uma vez, eu começaria a ficar assustado.

Uma final de recordes

Não é uma final comum para a paiN Gaming. De todas as organizações que podiam chegar na final, talvez ela fosse a que mais tivesse glórias em jogo. Isso porque eles têm a chance de igualar a marca de tri-campeão do Brasil da INTZ e ser os primeiros bi-classificados para o Mundial.

Desde que começou a dar vaga para torneios internacionais, o CBLoL conta com três campeões: KaBuM, paiN e INTZ. Os Intrépidos venceram dois primeiro-splits e um segundo, o que teoricamente torna a marca deles menos impressionante se comparada com a da paiN, que venceu a versão mais valiosa do torneio duas vezes.

Ao mesmo tempo, nunca na história do League of Legends um mesmo time brasileiro conseguiu duas vezes a classificação para o Mundial. A KaBuM foi em 2014, a paiN em 2015, a INTZ em 2016 e até agora só. O time de Arthur “PAADA” Zarzur até que chegou próximo do feito em 2013, mas deixaram escapar a classificação contra a GamingGear.

paiN na derrota pra Gaming Gear, em 2013

Nessa final contra a Team oNe, a paiN vai ter outra oportunidade de escrever seu nome na história. A organização ainda conta com Mylon e Kami —  dois dos cinco jogadores que os representaram em 2015 — e agora sob a liderança de Caio “Loop” Almeida e a explosão de Tay e Pedro “Matsukaze” Gama, ela tem tudo para aproveitá-la.